Por trás da fantasia

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“E não é de admirar; porque o próprio Satanás se transforma em anjo de luz” – II Coríntios 11:14.

Embora as escolas de samba invistam milhões de reais para preparar desfiles e fantasias que causarão impacto na avenida durante os quatro dias, o folião mais fantasiado neste carnaval é o que menos vai aparecer.  Com certeza é o que vai causar mais impacto, pois desfila desde que essa festa teve início; tem muita experiência e é mais inteligente e criativo que todos os organizadores de desfiles juntos.   É incansável na preparação e dificilmente atravessa o samba.

Tanto é verdade que um dos historiadores do carnaval no Brasil definiu a festa com o sugestivo título de “A dança dos orixás”.   Poucas definições seriam tão apropriadas.  A dança na avenida não é própria, é comandada por entidades que não são visíveis nos dias de folia.   A história do carnaval confirma isso.

O pesquisador José Carlos Rego, autor do livro Dança do Samba, ilustra isso da seguinte forma: “Com suas cores, metais, alimentos, domínios no universo, saudações e, suas danças, os orixás povoam a cultura brasileira desde o tempo da colonização; estão presentes em todas as nossas artes, notadamente no samba, um dos símbolos internacionais da brasilidade”.  Ele menciona a inspiração de algumas dessas danças:

“Mensageiro por excelência, Exú apresenta-se numa dança serpenteada; as mãos ora levantadas para o orun (céu), ora para o aye (terra) os quais ele interliga.  A comissão de frente nas escolas, em especial à partir dos anos 60, executa inúmeros de seus passos.

A coreografia de Ogun tem a dança do bravun bem agitada, os passos mais acelerados, braços movimentados para o alto, à frente e na horizontal, nesta última parte como a cortar lanças e defender-se de adagas com escudo imaginário, ações típicas de sua essência guerreira.

A dança de Oxossi é de especial beleza. Muito rápida, compõe-se de inúmeras fugas e contrafugas. Em esquivas ligeiras projeta o bailado por toda a extensão do ambiente. O corpo corcoveia, vai ao chão e para.

A dança de Iansã, além da rapidez, das fugas e contrafugas próprias de Oxossi, tem como propriedade feminina o enlaçar dos braços. A partir desses meneios desenvolve-se o “iruechim”, uma ondulação flutuante de mãos com os braços erguidos, uma evocação aos eguns (espírito dos mortos), simbolizando a vida física que se quebrou, se foi; ou melhor, passou para outro estágio.  Toda a graça do jogo cênico dos braços dessa coreografia é exibida no belo momento do desfile das grandes escolas de samba”.

O autor menciona, ainda, aqueles que são considerados os quatro principais centros de excelência do carnaval em todos os tempos:

“O primeiro Centro de Excelência do Carnaval se localiza no Egito. É o modelo mais simples de carnaval e consta de danças e cânticos em torno de fogueiras, máscaras e adereços e, à medida que as sociedades evoluem para a divisão de classes, orgias e libertinagens.  Os festejos logo se ligam à totens e deuses.

O segundo Centro de Excelência do Carnaval localiza-se na Grécia e em Roma, entre o século VII a.C. e VI d.C.  Com as sociedades já organizadas em castas e rígidas hierarquias, com a nobreza, o campesinato e os escravos, nitidamente separados por classes acentuam-se as libertinagens e licenciosidades.  Sexo, bebidas e orgias incorporam-se, definitivamente, às festas que, juntamente com o elemento processional e a inversão de classes.

O terceiro Centro de Excelência do Carnaval fixou-se nas cidades de Nice, Roma e Veneza e passou a irradiar para o mundo inteiro o modelo de carnaval que ainda hoje identifica a festa, com mascarados, fantasiados e desfiles de carros alegóricos.

O quarto Centro de Excelência do Carnaval se concentra no novo mundo, em especial, nos países onde as culturas negras mais atuaram.  O epicentro do modelo se localiza no Brasil, especialmente, na cidade do Rio de Janeiro onde se realiza, o que se pode considerar o maior espetáculo áudio visual do mundo. Não é sem motivo que o Estádio, ícone do Carnaval Contemporâneo passou a ser conhecido internacionalmente como Sambódromo”.

As luzes e o colorido da festa nada mais fazem do que ocultar aquele que é reverenciado nesses dias.

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